Ontem, ao ler algumas páginas da obra "Vida em fragmentos - sobre a ética pós-moderna" do sociólogo polônes (com atuação na Inglaterra) Zygmunt Bauman, me peguei refletindo acerca do papel da vanguarda e dos intelectuais nos dias correntes.. resolvi retratar, resumidamente, as minhas conclusões.
Pois bem, para os que não conhecem, Vanguarda é, segundo o Houaiss, "parcela da inteligentsia que exerce ou procura exercer um papel pioneiro, desenvolvendo técnicas, ideias e conceitos novos, avançados.. avant garde". Como se vê, vanguardismo e intelectuais são indissociáveis, por isso o título proposto: A vanguarda e os intelectuais. Calha asseverar, por oportuno, que os rebeldes, de forma similar aos vanguardistas, também se insurgem contra o pensamento e a ordem predominantes, entrentanto, deles não tratarei neste breve escrito porque a rebeldia consiste na insurgência atécnica, não-científica, ou seja, rebelar-se apenas por não se conformar, sem contudo propor, de forma plausível, um paradigma a se alcançar.Segundo penso, cada época da humanidade teve a vanguarda que mereceu. Sem delongar muito o assunto, pensemos na famosa Revolução Francesa. Quem era a vanguarda? A resposta é clara: os burgueses. E qual a causa da insatisfação ao sistema vigente? Em suma, os abusos praticados pelo monarca. Não se pense, contudo, que essa reviravolta burguesa se deu em um simples estalar de dedos. Com efeito, os burgueses assim o fizeram porque, ao elevar seu potencial econômico com o fortalecimento dos burgos, puderam ter acesso às universidades, que até então só era acessível aos nobres e à família da realeza. Esse é o ponto chave que queria chegar: os intelectuais são a vanguarda, são eles os responsáveis pela mudança de perspectiva, por uma nova aurora.
Ocorre que a realidade tem nos provado o contrário. Os intelectuais têm se dedicado apenas aos seus próprios e egoísticos interesses. É o que demonstrei brevemente no artigo antecessor (O jardim e a praça..). Em um mundo onde se é o que se tem, ou melhor, se mede a grandeza de uma pessoa pelo seu potencial de consumo, os acadêmicos estão se esquecendo de seu papel primordial de usar seus conhecimentos e habilidades em prol do coletivo para, de forma completamente antagônica, servir-se a si mesmos, para acumular, acumular, acumular riquezas.
É necessário amor ao próximo (Platão já dizia: "Quem não começa pelo amor nunca saberá o que é filosofia"). Por que digo isso? Simples: a grande massa não tem proprensão para o vanguardismo.
Não por preguiça, mas porque, envoltos em tantos problemas (BAUMAM diria, preocupados exclusivamente com a luta pela sobrevivência), não encontram tempo e tampouco inspiração suficientes para planejar uma reviravolta. E aí volto à tecla: são os intelectuais os incumbidos desta tarefa.
O neoliberalismo prega uma vassalagem sem precedentes do homem médio frente ao sistema, convencendo-o de que toda a felicidade do mundo pode ser adquirida pelo consumo. Ledo (e diria até ardiloso) engano.
Poder aquisitivo e felicidade não são correspondentes lógicos, muito pelo contrário. Quem muito tem, pouco se alegra com um pouco mais. Por outro lado, quem nada tem até se alegria caso um pouco mais tivesse, entretanto, o sistema não lhes proporciona o "mais ter", e aí, convenhamos, a proposta do sistema não agrada nem aos gregos, e nem aos troianos.
A vanguarda brasileira à epóca da Ditadura teve um inimigo muito mais fácil do que o adversário do vanguardismo atual. Como assim?
A Ditadura se impôs pela força prometendo desenvolvimento nacional. Ocorre que esse desenvolvimente não fora verificado e, para piorar, as liberdades mais básicas do cidadão foram cerceadas. Neste cenário, e presente a realidade diversa do resto do mundo (com exceção da América Latina, completamente dominada pelos regimes totalitários), os militantes lutaram e conseguiram demonstrar para o povo que a situação avassaladora deveria ser reformada, máxime tendo em consideração o modelo de vida empregado nos países livres.
Não quero, definitivamente, tirar-lhes todos os méritos e congratulações necessárias pelo grande favor que prestaram a sociedade brasileira, definitivamente não é essa a minha intenção. O que quero dizer, efetivamente, é que antes se lutava contra um inimigo visível.
Hoje, em contrapartida, o adversário é invisível, acobertado por táticas de propaganda e marketing, dominação, alienação.
Para afirmar o que digo, transcrevo um excerto de todo salutar, citado por Emerson Gabardo em sua obra "Eficiência e Legitimidade do Estado", a saber:
"O pensamento virou sinônimo de chatice. Os jornais imitam a televisão. Esta se satisfaz em alimentar os baixos instintos do povo. A imagem não se contenta em substituir a escrita; pretende superar o tédio da reflexão. Como se trata de um mercado, sobra uma fatia para o universo intelectual, submetida às mesmas regras da rede de trocas. Quem falar, morre. Ou não chega a acontecer. Neste caso, quem escreve é um morto. Melhor, um fantasma dado a algumas preambulações" [A idéia, citada por GABARDO, é de Juremir Machado da Silva, em obra denominada A miséria do jornalismo brasilero: as (in)certezas da mídia.]
Não se trata de uma proposta de resolução, mas sim uma reflexão do que hodiernamente acontece. Para findar, hei por bem citar o texto utilizado por GABARDO como prólogo da obra acima mencionada, de autoria de Viviane Forrester - verbis: "Não há nada mais mobilizador do que o pensamento. Longe de representar uma sombria demissão, ele é o ato em sua própria quintessência. Não existe atividade mais subversiva do que ele. Mais temida. Mais difamada também; e não é por acaso, não é inocente: o pensamento é político. E não só o pensamento político. Nem de longe! Só o fato de pensar já é político. Daí a luta insidiosa, cada vez mais eficaz, hoje mais do que nunca, contra o pensamento. Contra a capacidade de pensar. A qual, entretanto, representa e representará, cada vez mais, nosso único recurso".
Sem mais.
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